- Eu te amo não se vá. Dizia ela embriagada pela tristeza de vê-lo partir mais uma vez.
- Preciso ir, mas saiba que eu também te amo.
E ele se foi, deixando-a aos prantos sob o parapeito da janela. Antes que ela pudesse notar ele já havia desaparecido em meio à luz branca da lua e naquele momento a única coisa que ela sentiu foi uma dor profunda invadir-lhe o peito, uma dor que inundava seu coração e fazia de sua alma refém.
Olhar para trás seria como enterrar, cada vez mais profundamente, uma flecha em seu peito, a cada passo ele sentia como se gotas de sua vida caíssem ao chão, como folhas que soltam-se das árvores no outono.
Outono frio e doloroso, que se estendera por longos anos, apagando a beleza da primavera, a alegria do verão e o romantismo do inverno. Outono, cinza e escuro. Escuridão que tomava conta do coração de ambos. Ele e ela, antes um só agora viam- se diante do mundo, nus, desprotegidos, e como uma criança que chora sem a proteção dos pais, eles choravam e tentavam de todas as formas amenizar a dor da despedida.
Aos poucos a ferida foi cicatrizando e as marcas sendo encobertas por novos sentimentos, novas impressões. O amadurecimento era notável; a separação fizera com que ambos aprendessem a lidar com seus medos e angustias sozinhos, mas recordações das gargalhadas e momentos de carinho teimavam em aparecer, apareciam como em fotografias da infância perdida, dos amigos que não voltam e melancolicamente os dois voltavam a sentir a dor e o desespero de não se reencontrarem.
Ela casou-se, ele vive os prazeres de um solteiro bem sucedido. Felizes ? Sim, pois aprenderam conviver com a nostalgia de uma saudade que não será sanada, a angustia de não sentir mais os beijos dantes dados. Felizes, pela plena certeza de terem vivido intensamente o primeiro e mais marcante amor, a primeira e mais marcante despedida.